Ontem fiz uma viagem inesquecível, no pior sentido da palavra. Saí de Curitiba-PR na quinta-feira de manhã (11/03) com destino a Joinville-SC. O trajeto tem em torno de 110 km e leva, geralmente, uma hora e meia ou até um pouco menos.
O incrível aconteceu: levei 18 horas para chegar ao meu destino. Cheguei em Joinville às 5h da madrugada de sábado. Devido às fortes chuvas, ocorreram diversos deslizamentos que interditaram a estrada entre Joinville e Curitiba. Bom, isso é realmente uma situação incontrolável, pode acontecer, principalmente quando a infra-estrutura da estrada não dá conta de proteger os motoristas e os passageiros de uma situação que nessa região ocorre com bastante frequência. Mas não foi isso que tornou minha viagem tão “incrível”.
Eu estava em um ônibus, cuja passagem comprei pouco antes de embarcar, ou seja, às 11h. Aí me pergunto: se os deslizamentos ocorreram no início da manhã, a empresa sabia. Nesse caso, não deveria suspender a venda de passagens?
Ok, já tinha sido enganada quando ao embarcar o motorista me desejou uma boa viagem!! Como se isso fosse possível diante do caos em que a serra se encontrava. Paramos no congestionamento na altura de Tijucas do Sul, ainda próximos de Curitiba. Ficamos um bom tempo parados. Foi quando vários passageiros sugeriram ao motorista que pegássemos um caminho alternativo, pela serra Dona Francisca. A resposta, segundo o motorista, foi que a companhia não autorizava a mudança de rota porque a linha Curitiba-Florianópolis não poderia pegar outro caminho, a não ser aquele em que estávamos. Diante do absurdo, esperamos. Quando eram seis horas da tarde (11h15 - 18h), a empresa resolveu (segundo o motorista) autorizar nossa ida pelo caminho alternativo, já que a barreira não seria removida naquele dia. Pedimos que o motorista parasse para que pudéssemos comer, já que o ônibus saiu da rodoviária de Curitiba às 11h15 da manhã. Nosso pedido foi negado novamente!!
O caminho alternativo talvez não fosse tão ruim se fosse pego durante o dia, mas à noite (já passado das 18h) parecia uma loucura prosseguir. Pistas simples em uma estrada super estreita, sem acostamento nem iluminação. Foi quando algumas pessoas, eu inclusive, sugeriram ao motorista que voltássemos a Curitiba, já que ainda estávamos perto. Estávamos já há oito horas dentro de um ônibus cheio, sem água, sem comida e sem previsão de chegada. Como muitos estavam alertas e se comunicando com parentes por celular, sabíamos que havia risco de deslizamento também na serra Dna. Francisca, além do imenso engarrafamento provocado pelo grande número de veículos que transitavam pelo trecho. As pessoas começaram a ficar irritadas com aquela situação, com sede, sem comida e eu, particularmente, estava com medo de prosseguir. Fiquei pensando que se alguém passasse mal ou o ônibus estragasse não teríamos como pedir ajuda! Somente em alguns curtos trechos o celular pegava, até que não pegar mais de vez. Estávamos num fim de mundo! A única pessoa calma nesse momento era uma mãe que segurava seu bebê de colo. Sim, um BEBÊ DE COLO estava no ônibus e também pessoas idosas, mas o que a empresa tem a ver com isso, não é?!
Segundo o motorista, novamente, a empresa de ônibus não autorizou a volta do ônibus para Curitiba. E me pergunto mais uma vez: por que será que a empresa não queria que o ônibus voltasse? Sendo assim, fomos obrigados a correr riscos dentro de um veículo sem previsão de chegada. O motorista resolveu parar para que pudéssemos comer e comprar àgua, em Pién, próximo de São Bento do Sul-SC. Isso aconteceu às nove horas da noite. Recapitulando: ficamos das 11h15 às 21h sem água nem comida em um ônibus de uma empresa nem um pouco preocupada com seus passageiros!
Nessa parada os celulares estavam com área e pude conectar o carregador do meu celular em uma tomada do posto de gasolina para dar alguma notícia para meu marido, pois meu celular já havia descarregado há horas. Durante a curta ligação ele contou que a televisão estava avisando que tinha muito engarrafamento e riscos de deslizamentos na serra D. Francisca. Voltamos do lanche, conversamos com o motorista e ele disse que não podia fazer nada, apenas cumprir as ordens da empresa. Fomos então, apreensivos.
O caminho foi infernal, parávamos 2 horas e andávamos duzentos metros. A sensação era de que nunca chegaríamos. Com o sono vieram também as dores nas pernas, nas costas e o ar carregado do ônibus, cujas janelas não abrem. Com o ar condicionado sendo ligado às vezes, o ar oscilava entre quente, fedido e insuportavelmente gelado. Para ajudar, várias pessoas tossindo e espirrando. E eu ali, arriscando ficar doente ou cair um bloco de barro na minha cabeça, tudo por causa da irresponsabilidade e desrespeito da companhia para com seus clientes. Não só com estes, mas também com seus funcionários. A empresa obrigou um motorista a dirigir por mais de 18 horas seguidas, colocando ele e todos os passageiros em risco.
Depois de achar que nunca mais chegaria, alguém me acordou do cochilo e falou às 5 horas da manhã de sábado: chegamos! Nossa, que felicidade! Pra mim sim, mas pra muitos outros que estavam no ônibus não. Pois a viagem para eles continuava até Itajaí, Balneário Camboriú, Itapema e Florianópolis. Siiiiim, o mesmo motorista continuou dirigindo mais algumas horas ainda. Ele deve ter completado 24 horas ao volante ao fim dessa viagem.
Muito bem Empresinha, você é ótima e preza muito pela segurança dos funcionários e clientes. Que tal começar a transportar batatas, ao invés de pessoas?
Aí novamente me pergunto: por que não há outra empresa de ônibus fazendo esse trajeto? Por que será?